domingo, 7 de abril de 2013

As quatro operações: ADIÇÃO, poesia infantil de Bastos Tigre

Adição

  Bastos Tigre


Eu sou a Adição.  Reúno
As parcelas e, afinal,
Como sou um bom aluno,
Depressa encontro o total.

Quatro mais cinco são nove;
Mais treze são vinte e dois
E se quiserem que eu prove,
A prova farei depois.

A mestra nunca se esquece
Desta regra nos lembrar:
Só coisas da mesma espécie
É que podemos somar.

Somando pera e mamão,
Uva, banana e laranja,
Em lugar de uma adição
Uma salada se arranja.


Em: Antologia Poética, vol. I, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves: 1982.



As quatro operações: MULTIPLICAÇÃO, poesia infantil de Bastos Tigre

Multiplicação

  Bastos Tigre


Sou a Multiplicação.
Faço do “mais”, muito mais.
Numa espécie de adição
Tendo parcelas iguais.

Os dois fatores escrevo
E multiplicando os dois
Tenho os produtos e devo
A soma achar-lhes depois.

Se o dinheiro eu multiplico,
Muito bem isso me faz;
Mas não adianta ser rico
Faltando a saúde e a paz.






Em: Antologia Poética, vol. I, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves: 1982


As quatro operações: DIVISÃO, poesia infantil de Bastos Tigre



—                                       Divisão
                                            Bastos Tigre

Operação que tem arte
É por certo a Divisão
Ela é que parte e reparte
Com justiça e retidão.

Dividendo, divisor,
Quociente e resto também.
Mas se a conta exata for,
Direi que resto não tem.

Se o divisor for maior
Do que o dividendo, então,
(A regra sei eu de cor)
O quociente é fração.

Se Deus e os homens amais
Dividi,  fazendo o bem:
Dá o que tendes demais
Aqueles que nada têm.


Em: Antologia Poética, vol. I, Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves: 1982                        
                                            

A FLOR, poema infantil de Afonso Lopes de Almeida


                

                                         A FLOR

                                                      Afonso Lopes de Almeida



Que linda flor! – dizeis – porém
reparai bem:
vede que a sábia Natureza
não lhe deu só beleza,
mas fê-la útil também.

Beleza que é só beleza
embora que nada se iguale,
é coisa fútil…
Pois, com franqueza,
ser belo de nada vale,
se não se é útil.

Leis da vida, leis do amor!
Tudo produz, e o produto
novos produtos adiante,
constante, continuamente!
A flor se transforma em fruto,
o fruto faz-se semente,
volta a semente a ser planta,
torna a planta a abrir-se em flor!

Se tudo é útil no mundo,
e produtivo, fecundo,
nós, por nosso próprio bem,
trabalhemos,
estudemos,
sejamos úteis também!


Em: O mundo da criança, vol. I, Poemas e Rimas, Rio de Janeiro, Editora Delta, s/d

 ——–
Afonso Lopes de Almeida (RJ, RJ, 1888 – RJ, RJ, 1953), poeta, prosador, bacharel em Direito, membro da Academia Carioca de Letras. Filho da escritora brasileira Julia Lopes de Almeida.
Obras:  
A Árvore, 1916  
A Neve ao Sol: viagem lírica pelos cinco continentes   
Evangelho da Bondade e Outros Poemas, 1921  
Mãe, 1945  
Através da Europa, no Ano Primeiro da Era, 1923  
O Gênio Rebelado,1923  

BOLINHAS DE GUDE, poema Infantil de Maria Eugênia Celso


                                                                                                 

                                                                                      Ilustração Maurício de Sousa. 

                           Bolinhas de gude    
                               Maria Eugênia Celso


–Brancas, verdes, rajadinhas,
                               Amarelas,
                As bolinhas
                Vão rolando,
                Vão dançando
                Seja liso ou seja rude
                O chão onde vão rolando
                Lá vão elas, lá vão elas…
                               As bolinhas de gude.
–
–
Brincam os meninos com elas,
                               Estão jogando
                No jardim ou nas calçadas,
                As bolinhas vão correndo
                Azuis pardas, amarelas,
                               Rajadinhas,
–
–
E tão vivas, tão ligeira, tão alegres e estouvadas
                Que até fica parecendo
                               Que são elas
                                               As bolinhas
Que com eles estão brincando.
–
–Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968.

                                 Maria Eugênia Celso

–Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (São João Del Rey, Minas Gerais, 1886 – 1963), usou também o pseudônimo Baby-flirt.  Jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista.  Funcionária de carreira do Ministério da Educação e Cultura.  Veio de Minas Gerais para Petrópolis, ainda criança,  onde cursou o Colégio Sion.  Em 1920 começou sua carreira jornalística no Jornal do Brasil.  Participou ativamente do “Movimento Feminista”, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se ao assistencialismo junto às “Damas da Cruz Verde”, aparecendo como uma das lideranças que criaram a maternidade “Pro-Matre” do Rio de Janeiro.  Batalhou pelo direito das mulheres ao voto. Faleceu em 1963.

Obras:

Em Pleno Sonho, poesia, 1920
Vicentinho, 1925
Fantasias e Matutadas, poesia, 1925
Desdobramento, poesia, 1926
Alma Vária, poesia
Jeunesse, poesia
O Solar Perdido, poesia, 1945
Poemas Completos, 1955
Diário de Ana Lúcia, prosa,
De Relance, crônicas
Ruflos de Asas, teatro
Síntese Biográfica da Princesa Isabel, biografia

sábado, 6 de abril de 2013

ESTE LAGO SERENO - poesia de Ladyce West


                               Fantasia tropical –  Foto: Ladyce West, Jardim Botânico,  Rio de Janeiro.
Este lago sereno
Ladyce West 

Este lago sereno exerce uma atração,
Uma obsessão misteriosa,
Alucinante em mim.
Um desejo de mergulhar na sua profundeza,
De me perder em seu mistério,
De desaparecer na paisagem tranquila,
Pintada em suas águas sombrias,
Sossegadas, calmas e imóveis.  
Seu silêncio me hipnotiza e seduz.
–
–
Este lago manso me mesmeriza
No tratar invertido da natureza:
A dupla imagem, a ambiguidade.
Céu e água. Água e céu.
O reflexo do voo de um pássaro no ar…
Um  peixe fugidio a nadar?
Verso e reverso.  Corpo e alma.
Inferno e paraíso.
Meu mundo unido num só horizonte.

BANDEJA DE MADEIRA - poema de Ladyce West


                               Bandeja de madeira

                                                                       Ladyce West


Comprei uma bandeja de madeira,
No mercado de usados da cidade.
O preço alto, verdadeiro assalto,
Testava a minha vontade…
Invocada reclamei:
Preço muito apimentado!
O feirante desfiou, então,
A ladainha da ocasião:
Uma cascata de palavras
E de muitas abobrinhas.
Listadas de um modo simples,
Em fileira memorizada,
Uma tabuada de dados,
Sem nexo e sem sentido,
Qual jovem guia turístico
Treinado para repetir,
Sem nenhuma compreensão,
História de monumentos,
Batalhas, guerra ou ação.
Um rol de características,
Uma lista de preciosismos,
Que turistas escutam em vão.
No caso do comerciante,
Era manobra astuta,
Artimanha obstrucionista,
Inspirada na política
Do partido oposicionista,
Com intenção de impedir
Barganhas, regateio, pechincha.
Mas não me dei por vencida
E esbocei, na medida,
Uma ensaiada choradeira
De compradora matreira,
Desconfiada confessa.
Mas para meu desagrado,
A manobra desta vez
Não deu nenhum resultado.
E o vendedor perturbado,
Não se fazendo de rogado,
Disse em português claro:
O preço é este e está acabado!
Era esperteza, eu sabia.
Manha de ressabiado
Recalque de gato escaldado.
Experiente e esperta,
Também lhe disse umas tantas,
Questionei ainda uma vez
Os dados da tal bandeja
Que sabia muito bem
Não ser uma antigüidade.
Mas minha senhora veja,
Já não se faz trabalho
Detalhado como este.
Marqueteira finíssima,
Olhe a delicadeza
Deste desenho aqui em cima!
Mantive meu ar incrédulo
De pessoa que conhece:
Reclamei do acabamento,
Das alças, das bordas, do centro,
Do verniz barato – opaco.
Não sou caloteiro!
Nem tampouco pirateio.
A Sra. pode confirmar
Nos antiquários da cidade!
Vai ver que é coisa boa,
Que tem uma certa idade!
Pus-me a andar, dando o fora,
No velho ardil de negócios
Fazendo-lhe acreditar
Que era fácil ir embora.
Ele veio correndo atrás,
É vintage, minha senhora,
É vintage, repetia!
Como se a palavra,
A denominação,
A expressão estrangeira,
Respondesse às perguntas
Corriqueiras que lhe fiz.
Mas parei.  E voltei.
Queria muito a bandeja
Rica em marqueteira.
Não pode ser eu dizia,
Eu me lembro dessas bandejas,
Dessas lembranças para turistas,
Vendidas nas barraquinhas
Da Quinta da Boa Vista…
De súbito ele parou.
De cima abaixo me olhou.
E puxando lá do fundo
De sua sabedoria, perguntou:
– Mas quantos anos a senhora têm?
Num breve momento de pausa,
Disse para mim mesma:
Que história!  Traída pela memória!
Olhei para a bandeja de novo
E ainda uma vez mais…

E paguei.